Através da combinação entre saber acadêmico e espírito empreendedor, empresas juniores fornecem experiência diferenciada a estudantes e serviço de qualidade para os clientes.
Por João Vitor Cavalcanti e Otávio Batista
Empresas juniores são organizações compostas e gerenciadas por alunos de cursos de graduação ou nível técnico que funcionam nas próprias instituições de ensino superior. Essas organizações são uma forma diferenciada dos jovens terem um primeiro contato com o mercado trabalho, já que não precisam necessariamente sair da universidade.
“A primeira grande diferença entre uma empresa júnior e uma empresa tradicional é que nós não recebemos nada além de conhecimento de mercado e experiência”, destaca Pedro Xavier, aluno do sexto período do curso de Design da UFPE e diretor da Baobá Design, empresa júnior do Centro de Artes e Comunicação (CAC). O estudante comenta como outra diferença a assessoria profissional de professores, que avaliam o trabalho desenvolvido pelos alunos, mas também lembra que os jovens empresários são independentes diante das decisões a serem tomadas. “Se nós não acharmos interessante o que os professores disserem sobre o trabalho, não acatamos”, pontua. Ouça a entrevista completa com Pedro Xavier abaixo:
A Baobá Design foi criada há menos de cinco anos, mas o Movimento Empresa Junior (MEJ) começou bem antes disso, em 1967, na França. As primeiras atividades realizadas eram apenas estudos de mercado com base em enquetes comerciais nas empresas, mas a ideia se tornou tão popular no meio acadêmico francês que dois anos mais tarde foi criada a Confederação Nacional das Empresas Juniores. Já na década de 1980, o movimento passou a ganhar repercussão internacional e se expandiu para outros países da Europa, como Suíça, Bélgica e Espanha, até chegar aos Estados Unidos.
Em 1988, foi a vez de o Brasil receber essa iniciativa através da Câmara de Comércio e Indústria Franco-Brasileira, que trouxe os conceitos fundamentais do MEJ. Como resultado, surgiram as primeiras empresas júnior brasileiras em três universidades: a Universidade de São Paulo (USP), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A primeira empresa júnior de Pernambuco foi a Fcap Jr. Consultoria, vinculada à Faculdade de Ciências da Administração da UPE, fundada em 1989. Hoje, o movimento no Estado ganha destaque em âmbito regional e nacional. “Em eventos regionais, Pernambuco ocupa um destaque muito grande pelos prêmios conquistados por suas empresas. Em eventos que acontecem em outras regiões, chegamos a conquistar os três primeiros lugares e sempre temos alguma empresa de Pernambuco no podium”, explica Jéssica Vilaça, presidente executiva da Federação de Empresas Juniores do Estado de Pernambuco (Fejepe). A Fejepe é uma das 14 federações que formam a Confederação Brasileira de Empresas Juniores, também conhecida como Brasil Júnior (BJ), órgão máximo do MEJ no País. O Estado conta com dois representantes diretos no conselho da BJ e quatro membros do corpo executivo. Além disso, o presidente do Conselho da Confederação, Renan Costa Rêgo, é pernambucano.
Segundo Jéssica Vilaça, existem de 20 a 25 empresas juniores no Estado, entre interior e Região Metropolitana, no entanto apenas cinco estão federadas. Para ela, muitas empresas têm dificuldades em dar o primeiro passo. “A maior dificuldade é que as empresas ainda têm muito problema em sair daquela ‘ideia inicial’ para realmente começarem a executar seus projetos. Damos toda a orientação nesse período, porém é algo que eles têm que colocar a mão na massa e às vezes desistem pela quantidade de trabalho”, conta a empresária júnior.
Para evitar que os estudantes percam esse estímulo inicial, a Fejepe possui um programa de consultoria e coaching (ou treinamento). “Uma equipe de desenvolvimento fica responsável por auxiliá-las na detecção e resolução de gargalos nas empresas. Se a empresa vai bem, essa equipe trabalha com o coaching, visando melhoria contínua e um amadurecimento dos processos.”, completa Jéssica.
A participação em uma empresa júnior pode, de fato, ser bastante trabalhosa para os estudantes, mas oferece uma vantagem aos clientes: o serviço prestado é de baixo custo e boa qualidade. Como a finalidade desse tipo de negócio não é o lucro, e sim oferecer experiência de mercado aos participantes, é cobrado apenas o essencial. Mas o preço baixo não prejudica o nível do trabalho, a assessoria direta de professores das universidades garante a qualidade e o diferencial das empresas. “Como a empresa júnior não tem fins econômicos, o preço dos seus projetos é cerca de 30% mais barato do que os mais baixos cobrados por uma empresa tradicional”, explica Maria Regina Morais, gerente de projetos da A.C.E Consultoria, empresa júnior ligada ao Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA) da UFPE.
A A.C.E. foi fundada em 1993 e reúne alunos dos cursos de Administração, Ciências Contábeis, Economia, Secretariado e Serviço Social. Diferente da Baobá Design, A A.C.E. é uma organização interdepartamental, assim como o Centro Integrado de Tecnologia e Informação (Citi), do Centro de Informática (Cin), também da UFPE. Esse caráter multidisciplinar da empresa é responsável pelas diversas áreas em que atua: comércio exterior, econômico-financeira, logística, marketing, gestão estratégica, qualidade e recursos humanos. Assista ao vídeo promocional da A.C.E no link abaixo:
Como é comum nas empresas juniores, a estrutura administrativa, a execução de projetos, o processo seletivo para novos membros, entre outras funções, são de inteira responsabilidade dos próprios estudantes. Maria Regina Morais, como gerente de projetos da A.C.E, comenta o funcionamento da empresa. “Na A.C.E temos um Conselho, que é um órgão consultivo ao qual a Diretoria recorre para retirar dúvidas e apresentar os resultados que estão sendo alcançados. Enquanto isso, cabe a Diretoria Executiva o acompanhamento dos demais membros no que diz respeito ao alinhamento estratégico, bem como a tomada de decisão decisões estratégicas e os demais membros são responsáveis diretos pela execução de suas atividades.”, detalha.
A estrutura da A.C.E Consultoria pode ser observada no infográfico abaixo:

Maria Regina também fala da importância do processo seletivo nas empresas juniores. “Todos os membros da gestão administrativa da A.C.E passam por uma seleção específica.”, aponta. Na empresa da qual ela faz parte, os candidatos passam por uma seleção composta de cinco etapas: provas, dinâmicas, entrevistas, treinamento e projeto de integração. Caso o candidato passe por todas essas etapas, que normalmente duram meses, ele participará do Open House da A.C.E, evento que tem o intuito de mostrar aos pais o desenvolvimento do filho nesse período e como ele pode crescer ainda mais dentro da A.C.E. Consultoria e do Movimento Empresa Júnior.
Para Pedro Xavier, da Baobá Design, é justamente essa participação mais completa dentro da organização o diferencial entre adquirir experiência em uma empresa júnior e participar de um programa de estágio tradicional. “Você lida com todos os processos de uma empresa trabalhando desde os impostos que a empresa precisa pagar, até mesmo a área de Recursos Humanos e a própria direção do projeto. Muitas vezes em estágios tradicionais os alunos apenas executam ordens”, compara. Maria Regina concorda que o vínculo estabelecido faz a diferença: “Empresários Juniores são pessoas que desenvolvem habilidade de negociação, capacidade de liderança, visão empreendedora e vontade de crescer, pois trabalham duro e com paixão para garantir o sucesso do seu próprio negócio”, opina.